Saímos de São Luís às 19:00h, depois de um bom tempo em preparativos. Significa: abastecimento de diesel e água, lavar tudo que podíamos enquanto abastecia de água – já que estávamos com pouca no tanque (na Meditation são 1.200l e a Bebo 500l), tínhamos que aproveitar e sair com tanque cheio – almoço – às 17:00h, pois passamos o dia sem filtro do gerador enquanto Alexandre comprava, guardar tudo – enquanto estamos parados, relaxamos um pouco e sempre deixamos tudo espalhado, e na navegação, tudo pode cair.
Aproveitamos a maré vazante na saída, para evitar ondas maiores contra e nos dar maior velocidade. No entanto, surfamos em ondas grandes (2 a 3 m), o que torna nossas subidas e descidas maiores, dando até frio na barriga, como se estivesse em uma montanha-russa. Mas isso foi só o começo...
A primeira tempestade!!!
Pois é! Foi pior!!! As ondas, que já eram grandes a favor, passaram a bater de lado em virtude do rumo que precisávamos tomar! Foi um sacolejo sem fim!!! Era impossível andar. Quando tentei fazê-lo, fiquei quase suspensa no ar, sem saber ao certo onde ia aterrisar!!! Só a ponta dos dedos tocavam o chão! As ondas invadiam a popa (parte de trás) e lavavam todo o deck...a essa altura, ninguém pensava nas roupas recém-lavadas, estendidas no fly...E como diz o Alex, no mar, tudo vira um pesadelo em segundos!! Simone, ainda não habituada e enjoando muito, ficou no fly o tempo todo, sequer queria descer!! E lá é ruim de ficar, porque o balanço se sente muito mais forte!!! Enquanto isso, embaixo onde estavam os demais tripulantes, o gerador parou de funcionar, levando Fernando pra casa de máquinas por toda a noite, madrugada e início da manhã. Tudão o acompanhou, mas até ele, que tem uma resistência além do normal, não suportou tão bem o balanço intenso, o calor dos motores, o cheiro constante de óleo diesel...e deixou por alguns momentos Fernando, pescador e mecânico cascudo, ali, obstinado a resolver o problema, com um gole constante de café e uma tragada de cigarro, que nunca deixava sua boca. Foi eleito por todos nós o “herói da resistência”! Mas isso, depois de passado o tempo ruim, já que enquanto ele estava embaixo, Alexandre no comando, tudo caia e balançava a nossa volta. Até que eu tive a infeliz idéia de ir no escuro até a cabine de proa (minha e de Alexandre). Ao entrar, no escuro, senti a água no pé e percebi que ela invadia todo o espaço! Mesmo as vigias (janelas) estando bem fechadas, apertadas, era impossível conter a força do mar sobre elas! O colchão já estava encharcado e senti nos pés que a pasta com todos os documentos do barco, que fica sob minha responsabilidade, tinha caído, espalhando papéis, já que o armário onde estava guardada não aguentou a pressão ( a fechadura estava ruim) e abriu derrubando tudo. Comecei a catar tudo, no tato, passando pra lugar seco. Sequer dava pra ver o que de fato tinha sido molhado. O armário do banheiro também abriu, derrubando tudo pelo chão e quebrando o espelho ao bater na parede. Fiz o que podia e ao subir um enjôo me tomou, um desconforto, consequência não só do mar mexido, mas do tumulto criado, que não me permitia contornar. De repente, você percebe que certas coisas são irremediáveis e só te resta parar, esperar e contemplar, nem que seja o próprio caos. Assim, voltei a sala, sentei no pufe – que é meu melhor lugar para navegar, já que me permite sentir a brisa do mar, acompanhar o movimento das ondas e ficar bem encaixada, acolhida – e esperei o tempo ruim passar, cheia de pensamentos positivos e sonhos bons. Lógico que aqui e ali me levantava, ou melhor, engantinhava pelos cantos, para conter as coisas que deslizavam pelo chão – caixas de comida, agua mineral, fruteira – e ainda escutava o tilintar da louça do dono do barco bem acondicionada no armário, mas não imune a tanto balanço e o bater da porta do armário lá embaixo, que durou até às 04:00h.
É...mais ainda não acabou. Fernando continuou na casa de máquina, como disse, por todo o tempo, tentando acertar o gerador. Já de manhã, o piloto automático e os instrumentos de navegação, que estavam sustentados pelas baterias, pararam de funcionar, levando Alexandre a guiar o barco no manual por pelo menos 2 horas, quando Fernando finalmente conseguiu remediar tudo, por volta das 09:00h.
E como que por recompensa, o dia seguiu tranqüilo depois de tudo isso. Alexandre trouxe para o comando a carranca do São Francisco que minha mãe lhe presentiou. Todos cansados, mas uma serenidade no ar e uma navegada tranqüila. Fizemos as refeições tranquilamente, e Tudão, que desde o Ceará nos prometia um cuscuz baiano o fez com louvor. Côco ralado na hora, massa molhadinha, um espetáculo! Deu um certo trabalhinho, já que a cuscuzeira de inox, muito chique, deixava vazar o ar quente e precisamos improvisar: retalho de pano entre os encaixes da panela pra cozinhar bem. Assim foi nosso jantar. Ou melhor, o começo dele, já que durante a navegação, é comum sempre estar beliscando algo pra passar o sono.
E assim seguimos, chegando a foz do Amazonas durante a madrugada. Pela manhã, às 06:00h, estávamos em Soure, momento magistral. A luz perfeita da manhã, rio calmo, dia lento. Observamos desde logo que os barcos aqui, de madeira, possuem um desenho diferente, com a popa mais arredondada, cabines adornadas por uma espécie de grade de madeira e enfeitados com bandeirinhas coloridas. As letras de seus nomes também são mais rebuscadas, quando não há outros desenhos nos barcos.
Fundiamos e Tudão, Alexandre e Fernando providenciaram um convidativo café-da-manhã amazonense: queijo de búfala e açaí com farinha de tapioca, do grão duro e grande, à moda indígena. Depois das arrumações da chegada, merecido descanso.
Aproveitamos a maré vazante na saída, para evitar ondas maiores contra e nos dar maior velocidade. No entanto, surfamos em ondas grandes (2 a 3 m), o que torna nossas subidas e descidas maiores, dando até frio na barriga, como se estivesse em uma montanha-russa. Mas isso foi só o começo...
A primeira tempestade!!!
Pois é! Foi pior!!! As ondas, que já eram grandes a favor, passaram a bater de lado em virtude do rumo que precisávamos tomar! Foi um sacolejo sem fim!!! Era impossível andar. Quando tentei fazê-lo, fiquei quase suspensa no ar, sem saber ao certo onde ia aterrisar!!! Só a ponta dos dedos tocavam o chão! As ondas invadiam a popa (parte de trás) e lavavam todo o deck...a essa altura, ninguém pensava nas roupas recém-lavadas, estendidas no fly...E como diz o Alex, no mar, tudo vira um pesadelo em segundos!! Simone, ainda não habituada e enjoando muito, ficou no fly o tempo todo, sequer queria descer!! E lá é ruim de ficar, porque o balanço se sente muito mais forte!!! Enquanto isso, embaixo onde estavam os demais tripulantes, o gerador parou de funcionar, levando Fernando pra casa de máquinas por toda a noite, madrugada e início da manhã. Tudão o acompanhou, mas até ele, que tem uma resistência além do normal, não suportou tão bem o balanço intenso, o calor dos motores, o cheiro constante de óleo diesel...e deixou por alguns momentos Fernando, pescador e mecânico cascudo, ali, obstinado a resolver o problema, com um gole constante de café e uma tragada de cigarro, que nunca deixava sua boca. Foi eleito por todos nós o “herói da resistência”! Mas isso, depois de passado o tempo ruim, já que enquanto ele estava embaixo, Alexandre no comando, tudo caia e balançava a nossa volta. Até que eu tive a infeliz idéia de ir no escuro até a cabine de proa (minha e de Alexandre). Ao entrar, no escuro, senti a água no pé e percebi que ela invadia todo o espaço! Mesmo as vigias (janelas) estando bem fechadas, apertadas, era impossível conter a força do mar sobre elas! O colchão já estava encharcado e senti nos pés que a pasta com todos os documentos do barco, que fica sob minha responsabilidade, tinha caído, espalhando papéis, já que o armário onde estava guardada não aguentou a pressão ( a fechadura estava ruim) e abriu derrubando tudo. Comecei a catar tudo, no tato, passando pra lugar seco. Sequer dava pra ver o que de fato tinha sido molhado. O armário do banheiro também abriu, derrubando tudo pelo chão e quebrando o espelho ao bater na parede. Fiz o que podia e ao subir um enjôo me tomou, um desconforto, consequência não só do mar mexido, mas do tumulto criado, que não me permitia contornar. De repente, você percebe que certas coisas são irremediáveis e só te resta parar, esperar e contemplar, nem que seja o próprio caos. Assim, voltei a sala, sentei no pufe – que é meu melhor lugar para navegar, já que me permite sentir a brisa do mar, acompanhar o movimento das ondas e ficar bem encaixada, acolhida – e esperei o tempo ruim passar, cheia de pensamentos positivos e sonhos bons. Lógico que aqui e ali me levantava, ou melhor, engantinhava pelos cantos, para conter as coisas que deslizavam pelo chão – caixas de comida, agua mineral, fruteira – e ainda escutava o tilintar da louça do dono do barco bem acondicionada no armário, mas não imune a tanto balanço e o bater da porta do armário lá embaixo, que durou até às 04:00h.
É...mais ainda não acabou. Fernando continuou na casa de máquina, como disse, por todo o tempo, tentando acertar o gerador. Já de manhã, o piloto automático e os instrumentos de navegação, que estavam sustentados pelas baterias, pararam de funcionar, levando Alexandre a guiar o barco no manual por pelo menos 2 horas, quando Fernando finalmente conseguiu remediar tudo, por volta das 09:00h.
E como que por recompensa, o dia seguiu tranqüilo depois de tudo isso. Alexandre trouxe para o comando a carranca do São Francisco que minha mãe lhe presentiou. Todos cansados, mas uma serenidade no ar e uma navegada tranqüila. Fizemos as refeições tranquilamente, e Tudão, que desde o Ceará nos prometia um cuscuz baiano o fez com louvor. Côco ralado na hora, massa molhadinha, um espetáculo! Deu um certo trabalhinho, já que a cuscuzeira de inox, muito chique, deixava vazar o ar quente e precisamos improvisar: retalho de pano entre os encaixes da panela pra cozinhar bem. Assim foi nosso jantar. Ou melhor, o começo dele, já que durante a navegação, é comum sempre estar beliscando algo pra passar o sono.
E assim seguimos, chegando a foz do Amazonas durante a madrugada. Pela manhã, às 06:00h, estávamos em Soure, momento magistral. A luz perfeita da manhã, rio calmo, dia lento. Observamos desde logo que os barcos aqui, de madeira, possuem um desenho diferente, com a popa mais arredondada, cabines adornadas por uma espécie de grade de madeira e enfeitados com bandeirinhas coloridas. As letras de seus nomes também são mais rebuscadas, quando não há outros desenhos nos barcos.
Fundiamos e Tudão, Alexandre e Fernando providenciaram um convidativo café-da-manhã amazonense: queijo de búfala e açaí com farinha de tapioca, do grão duro e grande, à moda indígena. Depois das arrumações da chegada, merecido descanso.
Seguem abaixo, fotos de nossa chegada a Soure.


3 comentários:
Caraca Gabi!!!
Essa narrativa me fez lembrar o filme Mar em Fúria...Caos Total!!!
E a documentação já pendurou pra secar???Hahahahaha...O Capitão Gancho deve ter te levado a prancha para servir de comida aos tubarões!!!!Sei que o serviço deve estar bem corrido, mas sou leitor assiduo deste blog e espero mais atualizações para ter jogar na imaginação essa viagem maravilhosa!!Beijao e vão com Deus sempre!!!
Olá, Gabi!!
Estava aqui falando c Ju, querida Ju, daí ela mandou o endereço de seu blog p eu ver...e tá lindo! Mas ainda não li, quero fazer isso c calma, e hj o meu dia foi cheio de afazeres..acabei de chegar de campina cheia de cansaço (rs). Mas passarei aqui c a calma merecida.
Um abraço grande para vc! ;)
Oi, Gabi!
Hoje, desfeita de todo cansaço de ontem, vim aqui com aquela calma que disse. Li, vi várias imagens maravilhosas e já adicionei seu blog em 'favoritos'!
F-e-l-i-c-i-d-a-d-e-s para você!;)
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